
Esta história de voltar a escrever sobre comida, e de ter de novo um sítio onde partilhar as minhas receitas, veio acordar violentamente a minha antiga paixão por livros de cozinha, que andava meio sonolenta e completamente sob controlo. A estante voltou a ser desarrumada, com livros a acumularem-se na sala, no atelier e na mesinha de cabeceira. E depois, o inevitável aconteceu.
Os insaciáveis dedos digitaram no teclado a morada fatal: amazon.co.uk . Como num daqueles ataques ao frigorífico que destroem uma dieta em segundos, também esta shopping-spree deitou por terra as minhas promessas de contenção de despesas, e em pouco tempo estava o carrinho cheio com todos os livros que andava a namorar há meses.
O senhor das entregas ficou contente de eu morar apenas num primeiro andar, tal era o peso do caixote, e eu feliz como uma criancinha no Natal, ignorei voluntariamente que isto não era presente nenhum, e ia sair, acompanhado de um doloroso sentimento de culpa, da minha conta bancária. Detalhes.
O dilema agora seria saber por onde começar, mas a resposta veio no formato de uma verdadeira prenda de Natal antecipada. Mais preciosa do que aquela pilha de livros novinhos em folha.

“Tratado Compacto de Cozinha e de Copa”, de Carlos Bento da Maia, era a Biblia das donas de casa. A minha mãe tem o seu exemplar, que pertencia à minha avó Lena, e que eu esperava vir a herdar. Mas a minha prima Ana, que acompanha sempre em primeira fila as minhas experiências culinárias, decidiu oferecer-me esta valiosíssima primeira edição que pertencera ao meu bisavô Zézinho.
Desculpem-me todas as outras pessoas que me vão dar prendas maravilhosas este Natal, mas esta já ganhou o prémio de Melhor Prenda do Ano, ainda a um mês de distância.

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