Doce de Peramboesa

Tenho saudades dos meus avós. Da avó Lena em particular, tantas. Da comidinha da avó Lena também.

Em miúda, chegar à Lourinhã para umas férias ou fim de semana era sinónimo de ter um bolo de iogurte acabadinho de sair do forno à espera. E havia uma alegria especial quando o jantar era bife com batata frita e sopa de cenoura. Também fazia compotas excepcionais, nomeadamente um doce de pêra com pedaços, com que o meu irmão se lambuzava sempre que podia.

Talvez seja apenas a minha memória a pregar partidas, e a minha imaginação a tomar as rédeas, mas lembro-me de a minha avó ser muito consistente a cozinhar. O bolo saía sempre igual, sempre perfeitamente crocante por fora e fofinho por dentro. Os bifes eram fritos numa frigideira grande e tinham um molho que não era muito espesso e estava cheio de fatias de alho que eu deixava sempre no prato. A acompanhar, batatas fritas cortadas em palitos grossos, sempre no ponto. A sopa de cenoura, tão aveludada, era a única que não faziamos fita para a comer. Se fechar os olhos, ainda me consigo lembrar do sabor.

Doce de Peramboesa

A paciência é das qualidades mais importantes na cozinha, e a Avó Lena foi a pessoa mais paciente que alguma vez conheci. A minha mãe herdou essa paciência em grande parte e, embora não lhes chegue aos calcanhares, gosto de pensar que também me passaram essa característica. E também o prazer de cozinhar para os outros, o carinho com que se prepara uma refeição que outros irão provar. Ou um pote de doce que vamos oferecer.

Já a consistência é outra história. De algum modo, parece que fazer algo sempre da mesma maneira vai contra a minha natureza. Apesar da paciência, aborreço-me com facilidade. Talvez seja essa a definição de criatividade: uma necessidade de procurar novos caminhos que vem de uma imensa aversão a repetir. Isto reflete-se em tudo o que faço, na minha vida pessoal,  profissional e, claro, na cozinha.

Doce de Peramboesa

Doce de Peramboesa

O que nos leva de volta ao maravilhoso doce de pêra da Avó Lena, o que ela fez vezes sem conta, sempre da mesma maneira. Francamente, nunca houve razão para alterar nada. Era perfeito. Da primeira vez que o fiz, segui a receita à risca, e ficou divinal. Mas a partir da segunda vez, as experiências começaram. E hoje trago-vos uma das experiências mais bem sucedidas, aquela em que adicionei uma mão cheia de framboesas ao tacho, o que transformou completamente o sabor e lhe deu um tom mais avermelhado.

O sabor a framboesa, nestas proporções, é subtil e faz-nos pensar em gomas e rebuçados. Pode ser da mesma família, mas já não é doce de pêra. (Franpêra? Peroesa? Peramboesa? Gosto de misturar as palavras como os ingredientes.) É melhor ou pior do que o original? É uma questão de gosto. Para mim não fica nada a perder, e por isso o partilho aqui. É diferente de qualquer doce que se possa comprar no supermercado, a melhor razão para deitar mãos à obra e distribuir pequenos potes de doce pelos amigos.

Fica perfeito em tostas ou torradas, e gosto especialmente de o combinar com o sabor salgado do queijo creme. Também complementa muito bem um iogurte grego não açucarado, mais uma vez, por causa do contraste dos sabores.

Doce de Peramboesa

Doce de Peramboesa

  • 1 kg de peras descascadas e descaroçadas
  • 600g de açúcar
  • sumo de meio limão
  • 125 g de framboesas

Deitar o sumo no fundo de uma panela grande.

Cortar as peras em pedaços e juntá-las ao sumo de limão, mexendo para envolver.

Juntar o açúcar e as framboesas e levar a lume brando.

Mexer ocasionalmente com uma espátula de borracha, esmagando cuidadosamente as framboesas.

Deixar cozinhar entre 30 minutos a 1 hora, com cuidado para não deixar pegar no fundo do tacho, até atingir o ponto de estrada. (Para testar, deitar um pouco de doce num pratinho e passar com uma colher no fundo do prato para ver se o doce fica separado, com uma “estrada” pelo meio.)

Deitar em frascos esterilizados enquanto ainda está quente.

Doce de Peramboesa

Dia 1 ...na Cozinha - Novembro Esta é a minha participação no Dia 1… na cozinha de Novembro, com o tema de doces e compotas.

Comentários

  • O teu doce ficou maravilhoso! Pessoalmente, creio que preferiria a receita da Avó Lena, já que não aprecio muito framboesas. Mas que ficou lindo, ficou!!

    Lina,
  • O doce ficou lindo, com uma cor fantástica e com pedacinhos de fruta, que é como eu gosto. Não sei porquê, as lembranças da infância e das pessoas que a marcaram parecem mais fortes quando são acompanhadas por aromas e sabores. Pode ser porque sou uma pessoa que gosta de comer e de cozinhar, mas é esse tipo de memórias que também gostava de deixar de herança às minhas filhas.
    Um beijinho, Paula

    Paula,
  • Aqui está mais um doce que nunca fiz. Deve ser mesmo bom, uma vez que sou fã de pêras. Quanto às framboesas, estas são raras por aqui e o preço é quase proibitivo. Como ia agora bem uma colherzinha dele em cima de uma bolachinha ou de uma fatia de pãozinho. Que excelente participação. Beijinhos aqui do meio do mar.
    Patrícia

    foodwithameaning,
  • O aspecto é fantástico e a conjugação de sabores bem interessante! Fiquei bastante curiosa :)

    Bjinhos

    Susana_Basta Cheio,
  • Olá Patricia!
    Adorei ler as tuas memórias, os doces e as compotas também me fazem viajar até à infância, apesar dos sabores não serem os mesmos que referes.
    Esse doce de pera da tua avó Lena deve ser qualquer coisa de divinal, mas também gostei muito desta tua inovação com as framboesas que, a avaliar pela cor e pelo aspecto só pode ser uma verdadeira delicia. 😉
    Beijinho.

  • Que linda que ficou, com um aspeto soberbo. receitinha das nossas mais que tudo, são tão boas e deixa-nos a recordar belos momentos, embora com saudade, mas reconfortantes.
    Bjs.
    Paula

    Paula Vieira,
  • Belíssima história! E ficou tão linda, tão transparente! Gostei muito – não fosse eu perdida por framboesas, que devem ter ficado a matar com a pera – e vou guardar a receita. Beijo! Susana

    Susana,
  • A cor é de ficar sem palavras e a combinação de sabores … nem se fala!
    Beijinhos

    Carla,