Tarte Flambée

Em 1994, passei um mês na Alsácia, com um grupo de jovens de todo o mundo — éramos 40, de 25 nacionalidades—, a convite dos Lions Clubs de França. Não acredito que já passaram 20 anos. Uma coisa é certa: a Patrícia que foi, não foi a mesma que voltou.

O CCMI94 foi um mês de aventuras gastronómicas e culturais inesquecíveis, mas sobretudo, obrigou-me a sair da minha zona de conforto e a aprender a disfarçar a minha insegurança e timidez. Fiz grande s amigos e apaixonei-me perdidamente pela primeira vez, com o consequente e inevitável desgosto de amor, mas essa história fica para outro dia.

Tarte Flambée

Fui de avião para Paris, onde conheci o grupo com quem ia ficar, e seguimos depois em autocarro para Estrasburgo, depois para Metz, acabando de novo em Estrasburgo. Visitámos o Parlamento Europeu, museus, catedrais, fortalezas, quintas, caves vinícolas, assistimos a espectáculos fogo de artifício, de teatro ao ar livre, vimos juntos Brasil ganhar à Itália na final do campeonato do mundo de futebol, fizemos piqueniques, caminhadas, explorámos bem toda a região. E no meio disto tudo, aconteceram duas coisas importantes: aprendi a gostar de vinho e de pizza.

Uma das nossas primeiras visitas tinha sido a uma cave de champanhe, precisamente em Champagne, que ficava no caminho entre Paris e Estrasburgo. Ainda era a esquisitinha com medo de experimentar coisas novas, e fui burra suficiente para nem sequer ter provado aquele champanhe maravilhoso, um daqueles arrependimentos que ficam para sempre. Foram todos bem mais alegres o resto da viagem, é tudo o que sei. Todos menos eu.

No entanto, estivemos presentes em inúmeras recepções oficiais, em que a escolha de bebidas era, invariavelmente, um horrível sumo de laranja artificial, muito diluído, ou um cocktail lindíssimo chamado de Kir. O Kir é típico da região e consiste numa flute de vinho branco bem gelado (o Kir Royal era com champanhe), com um licor de groselha preta no fundo do copo (Crème de Cassis), fazendo um bonito degradé. Acho que ainda bebi sumo uma ou duas vezes — lá está, burra — mas eventualmente ganhei juízo e através do Kir aprendi a gostar, e muito, de vinho branco.

Tarte Flambée

Com as pizzas , também foi por falta de alternativa. A maioria das nossas refeições era feita numa cantina universitária ao pé da praça da Catedral, uma das mais bonitas praças que já visitei. A comida era… de cantina, com uma extraordinária excepção. Havia um forno a lenha a produzir fantásticas pizzas ali mesmo à nossa frente. Assim que chegávamos, era uma correria desenfreada para a bicha das pizzas. Já eu era a primeira a despachar-me, porque ia para a comida normal. Que nunca tinha bicha. Porque ninguém a comia. Porque era má, muito má, péssima mesmo. Só que eu não gostava de pizza, porque tinha queijo e o horror era tanto que eu não conseguia nem tocar em queijo. Mas dia após dia, aquela comida miserável acabou por vencer-me e lá acabei por ganhar coragem para me juntar à multidão.

Para meu grande choque, a pizza era simplesmente a melhor coisa do mundo. O queijo normal pode ser horrendo, mas queijo derretido é maravilhoso e viciante! A descoberta do vinho tinha sido rápida, mas para minha desgraça, tinha demorado quase o mês inteiro para chegar a pizza. Mas foi mesmo à conta.

Tarte Flambée

Após um mês a morar juntos num campus universitário, grande parte do grupo voltou para casa, cada um para o seu canto do mundo. Quem quisesse podia ficar ainda uma semana alojado numa família de acolhimento, o que foi o meu caso. No último dia, organizou-se um jantar de despedida dos que ainda restavam, num restaurante típico Alsaciano, onde se serviam as famosas Tartes Flambées, ou Flammekueche, uma espécie de pizza branca com massa muito fininha e estaladiça, natas ácidas, cebola e bacon.

Em vez de regressar de avião, os meus pais tinham decidido que me iam buscar de carro, com o meu irmão. Sim, foram de Lisboa a Estrasburgo, como quem vai ali à margem sul. Com várias paragens turísticas pelo caminho, é certo, mas em intenso modo de papa-quilómetros.  Tinham chegado a Estrasburgo justamente nesse dia, e juntaram-se ao grupo nesse épico jantar.

Passaram 20 anos mas lembro-me de tudo ao pormenor. A enorme mesa em forma de L no pátio do restaurante, a temperatura espectacular daquela noite de Agosto, as Tartes Flambées deliciosas que desapareciam em segundos mas não paravam de chegar, o vinho fresco que eu não parava de beber, a euforia de estarmos juntos uma última vez, uma mistura da alegria de ainda ali estar, e ver os meus pais e irmão depois de um mês fora, com a tristeza dilacerante de saber que partia na manhã seguinte. Também nunca me vou esquecer da cara de espanto dos meus pais ao verem-me comer pizza e beber vinho como se não houvesse amanhã. Quem és tu e o que fizeste com a nossa filha?

Tarte Flambée

Quando vi que o tema deste mês do Dia um… na cozinha era pizza, não foi Roma mas sim Estrasburgo que me veio à cabeça. A Tarte Flambée não é bem uma pizza, mas pertence à família. De certo me perdoarão.

Tarte Flambée


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Stuffed Italian Pepper / Pimento Italiano Recheado

Sempre desconfiei dos pimentos recheados. Se são feitos com arroz ou carne picada, parecem-me sempre demasiado pesados. Demoram uma eternidade no forno para ficarem bem cozinhados, e têm um sabor demasiado intenso se ficarem mal passados.

Como aconteceu eventualmente com quase todos os vegetais (criança esquisita a comer que eu era), passei do zero aos 100, de detestar a adorar estas verdadeiras bombas de vitamina C, em particular num belo churrasco. Quando vivi em Londres, descobri uma variedade que me agradou ainda mais, os pimentos italianos. Pontiagudos como malaguetas gigantes, podem ser verdes ou vermelhos (os meus preferidos), têm um sabor mais suave  e doce, e são menos carnudos.

Italian Pepper / Pimento Italiano

Em Lisboa são difíceis de encontrar, mas sempre que aparecem de surpresa na prateleira de um supermercado, vão parar inevitavelmente ao meu carrinho. Acabam, quase sempre, às fatiazinhas num salteado oriental, ou em pedaços maiores, grelhados, como topping de hamburger ou acompanhamento.

Grilled Italian Pepper / Pimento Italiano Chamuscado

Ontem sabia de antemão que não me ia mexer muito da cadeira. Para não me sentir muito culpada pela falta de tempo para caminhadas ou ginásio, resolvi fazer uma refeição leve para o almoço e rechear um daqueles maravilhosos pimentos italianos que me andavam a piscar o olho de cada vez que abria o frigorífico. Nada de carne picada, nada de arroz ou cuscuz, o dia pedia um prato vegetariano, com poucos hidratos de carbono.

Para ter a certeza de que o pimento não corria o risco de ficar mal passado, dei-lhe um valente apertão directamente na chama do bico do fogão, que deu ao pimento um ligeiro sabor a churrasco como bonus. (Não abusei do esturricado, como se pode ver na fotografia, mas é verdade que não é particularmente saudável. Pode-se sempre saltar este passo, e depois deixá-lo mais tempo no forno, para compensar.)

Vegetarian Stuffed Italian Pepper / Pimento Italiano Recheado Vegetariano


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